Entenda como a tatuagem se relaciona com masculinidade, identidade, expressão emocional e histórias pessoais.
Autor: Camila Ezequiel
Postado em 30 de outubro de 2026 às 09:49
Atualizado em 30 de outubro de 2026 às 09:49

Uma tatuagem pode representar muito mais do que uma escolha estética. Ela pode carregar memórias, marcar transformações e revelar aspectos da identidade que nem sempre conseguimos expressar em palavras.
O corpo fala o que a boca silencia. No universo masculino, em que a vulnerabilidade muitas vezes é lida de forma errônea como fraqueza, encontrar canais de expressão legítimos tornou-se uma questão de saúde mental e identidade.
E é nesse cenário que a modificação corporal ganha um novo contorno: longe de ser apenas uma escolha estética, a tatuagem tem se tornado um manifesto visual das histórias, traumas, superações e memórias que os homens carregam na pele.
No episódio #29 do podcast Empatados, produzido com o selo de qualidade audiovisual da Artêmia Co., os apresentadores Arthur Abner e Wesley Pires conversaram com Gabriel Malta, tatuador autoral há 10 anos e criador do estilo Chromacore. O debate trouxe à tona uma reflexão profunda sobre como a arte corporal dialoga com a saúde mental, a vulnerabilidade e as novas formas de vivenciar a masculinidade no século XXI.
Por décadas, a sociologia e a antropologia estudaram a marcação corporal como um ritual de passagem. Na sociedade contemporânea, em que os ritos tradicionais de transição da juventude para a vida adulta se fragmentaram, a tatuagem assumiu a função de autodefinição.
Quando um homem decide fazer uma tatuagem, ele passa por um processo de escolha consciente sobre o que deseja carregar permanentemente. Estudos da psicologia social apontam que a modificação corporal atua como um reforço de autonomia e autoestima:
A relação entre tatuagem e masculinidade também passa pelas expectativas sociais associadas ao comportamento masculino.
Em muitos contextos, meninos e homens aprendem que precisam demonstrar força, independência e autocontrole. Expressar tristeza, admitir inseguranças ou pedir ajuda pode ser interpretado como sinal de fraqueza, mesmo quando essas experiências fazem parte da vida de qualquer pessoa.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), em uma revisão sobre masculinidades, cultura e busca por cuidados em saúde mental, identifica a autossuficiência rígida, a dificuldade de expressar emoções e a valorização excessiva do autocontrole como barreiras que podem dificultar a procura de ajuda por parte dos homens.
Isso não significa que todos os homens tenham dificuldade para falar sobre sentimentos ou que exista uma única maneira de viver a masculinidade. Significa que determinadas expectativas culturais podem limitar as possibilidades de expressão de algumas pessoas.
Nesse cenário, falar sobre o corpo também é falar sobre liberdade. Poder escolher como se apresentar, quais símbolos carregar e quais padrões questionar faz parte da construção da própria identidade.
Um dos tópicos abordados no Empatados foi a desconstrução do conceito de que existam estilos estritamente "masculinos" ou "femininos". A imposição de traços brutos, tribais ou símbolos de agressividade como únicas opções aceitáveis para o público masculino está sendo substituída pela busca por autenticidade. Estilos autorais, como o Chromacore, desenvolvido por Gabriel Malta, combinam fluidez, cor e formas abstratas, permitindo que a expressão artística prevaleça sobre moldes genéricos de gênero.
A questão, portanto, não é estabelecer quais tatuagens combinam com cada gênero, mas compreender como cada pessoa constrói sua relação com o próprio corpo.
Um fenômeno pouco debatido, mas amplamente vivenciado no universo da tatuagem, é a relação interpessoal entre profissional e cliente. Durante sessões longas de tatuagem, que podem durar de duas a oito horas, cria-se um ambiente de intimidade e isolamento do mundo exterior.
Muitos homens encontram na cadeira do estúdio de tatuagem um espaço inédito de escuta terapêutica não formal. Longe do julgamento do ambiente corporativo ou social, eles relatam traumas, medos, separações e dores emocionais enquanto a pele é gravada. Essa dinâmica revela o quanto a sociedade masculina carece de ambientes onde possa se expressar sem a exigência de parecer invencível.
Reconhecer a dimensão humana desse trabalho ajuda a compreender por que as histórias por trás das tatuagens podem ser tão significativas quanto os desenhos.
Se uma tatuagem pode representar uma fase da vida, o que acontece quando essa fase termina?
A identidade humana não é estática. Quem uma pessoa era aos 20 anos dificilmente reflete suas prioridades e valores aos 35 ou 40 anos. Por isso, a relação dos homens com tatuagens antigas também reflete suas transformações internas.
O crescimento do mercado de remoção de tatuagens a laser e a prática do cover-up (cobertura de tatuagens antigas com novos desenhos) ilustram essa evolução. Arrepender-se de uma marca na pele não deve ser encarado como uma falha, mas sim como a evidência física de que a pessoa mudou.
O arrependimento pode envolver diferentes fatores: uma decisão impulsiva, mudanças de preferência estética, experiências pessoais ou desconforto com a maneira como a tatuagem é percebida socialmente.
Por isso, pensar, pesquisar, conversar sobre o desenho, avaliar sua localização no corpo e compreender o processo antes de tatuar continua sendo importante.
Temas como masculinidade, expressão emocional, corpo e identidade ganham novas perspectivas quando são discutidos em profundidade, com espaço para experiências pessoais, perguntas e pontos de vista diferentes.
O Empatados é um podcast com selo Artêmia Co. dedicado a discutir masculinidades sem medo de ser vulnerável. No episódio Tatuagem e masculinidade: o que os homens dizem através do próprio corpo?, Wesley Pires e Arthur Abner conversam com Gabriel Malta sobre tatuagem, identidade, padrões de gênero, histórias compartilhadas durante as sessões e as mudanças que acompanham nossas escolhas.
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Quer se aprofundar nessa conversa sobre arte corporal, escuta e masculinidade? Assista ao episódio #29 do Empatados com o tatuador Gabriel Malta nas plataformas oficiais:
Entenda por que homens buscam menos ajuda para cuidar da saúde mental e como romper esse ciclo.
O Patadas recebe Cathetinne Louise para falar sobre prazer feminino, educação sexual e os tabus que cercam a sexualidade.
O Empatados recebe Guipa para discutir masculinidade, movimento red pill e a influência das redes sociais.
Entenda como a maternidade real envolve escuta, acolhimento e descobertas constantes na relação entre mães e filhos.
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